A Lucy, da NASA, é a sonda que vai visitar os asteroides troianos de Júpiter — duas nuvens de corpos presas na mesma órbita do planeta, uma na frente dele e outra atrás. É a missão de sobrevoos mais longa já planejada: doze anos de voo para passar perto de oito troianos e de mais alguns asteroides do cinturão principal, e ninguém nunca viu um troiano de perto.
Neste momento, enquanto você lê, a Lucy está a 758 milhões de quilômetros do Sol, viajando a 33 mil km/h, em silêncio, entre a órbita de Marte e a de Júpiter. O próximo encontro dela está marcado para 11 de agosto de 2027, e é para ele que todo o resto deste artigo caminha.
O que é um asteroide troiano
Imagine a órbita de Júpiter em volta do Sol como uma pista circular. Existem dois pontos nessa pista, um 60 graus à frente de Júpiter e outro 60 graus atrás, onde a gravidade do Sol e a de Júpiter se combinam de um jeito que segura objetos no lugar. São os pontos L4 e L5, dois dos cinco pontos de Lagrange explicados em O que é o ponto L2, onde ficam os telescópios.
Como esses dois pontos são estáveis, eles funcionam como ralos: qualquer entulho que passe por ali tende a ficar. Ao longo de bilhões de anos, eles acumularam nuvens inteiras de asteroides. São os troianos, batizados com nomes de personagens da guerra de Troia — Aquiles, Agamenon, Heitor, Pátroclo.
E é aqui que a coisa fica interessante. Como esses corpos estão presos há bilhões de anos, longe do calor do Sol e longe das colisões do Cinturão de Asteroides, eles são suspeitos de ser material praticamente intocado da época em que os planetas se formaram. Não pedras quaisquer: amostras congeladas do começo de tudo.
Por que o nome Lucy
O nome é uma homenagem ao fóssil Lucy, o esqueleto de uma australopiteca encontrado na Etiópia em 1974, que mudou o entendimento da evolução humana. A ideia é direta: assim como aquele fóssil ajudou a contar a história da nossa espécie, os troianos são fósseis que devem contar a história do Sistema Solar.
Um dos asteroides já visitados, o Dinkinesh, tem o nome amárico do mesmo fóssil. E outro alvo, o 52246 Donaldjohanson, leva o nome do paleontólogo que encontrou Lucy.
Como está a viagem até agora
Estes números vêm do arquivo de trajetória oficial da missão, o mesmo que o sistema Horizons do JPL serve publicamente. A Lucy foi lançada em 16 de outubro de 2021, às 09h34 UTC (6h34 de Brasília), de Cabo Canaveral, num foguete Atlas V.
| Quando | O quê | Distância da passagem |
|---|---|---|
| 16/10/2022 | 1º sobrevoo da Terra, para ganhar impulso | 359,7 km de altitude |
| 01/11/2023 | Asteroide Dinkinesh, de 700 m | 430,6 km |
| 13/12/2024 | 2º sobrevoo da Terra | 356,4 km de altitude |
| 20/04/2025 | Asteroide Donaldjohanson, de 4 km | 961,4 km |
| 11/08/2027 | Eurybates, de 64 km, e a lua dele, Queta | primeiro troiano |
| 15/09/2027 | Polymele, de 21 km | troiano |
| 18/04/2028 | Leucus, de 34 km | troiano |
| 11/11/2028 | Orus, de 51 km | troiano |
| 27/12/2030 | 3º sobrevoo da Terra | 614,9 km de altitude |
| 03/03/2033 | Pátroclo e Menoécio, de 113 e 104 km | troianos, na outra nuvem |
Repare nos três sobrevoos da Terra. A Lucy não tem combustível para chegar a Júpiter na força bruta: ela volta em casa três vezes para roubar um pouco da velocidade orbital do nosso planeta, a manobra descrita em Sonda Juice passa perto da Terra em 28 de setembro.
Uma observação de honestidade, porque ela importa: o arquivo de trajetória usado aqui é rastreamento real até setembro de 2025 e previsão depois disso. As datas futuras são o plano de voo, não fatos consumados.

Onde a Lucy está hoje, calculado aqui
Pedindo ao Horizons a posição da sonda para 27 de setembro de 2026, saem estes números:
- distância do Sol: 5,067 UA, ou 758 milhões de km
- velocidade em relação ao Sol: 9,26 km/s, ou 33.318 km/h
- distância da Terra: 5,88 UA, ou cerca de 880 milhões de km
- tempo que um sinal de rádio leva para chegar até ela: 49 minutos, só na ida
- constelação em que ela aparece, vista daqui: Virgem
Os 49 minutos merecem um parágrafo. Um comando enviado agora chega lá quando o seu almoço já acabou, e a confirmação de que ele funcionou volta uma hora e meia depois de você apertar o botão. Não existe pilotagem em tempo real no espaço profundo — o assunto está em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.
O primeiro troiano: 11 de agosto de 2027
O encontro com Eurybates é o grande momento da missão, porque é o primeiro contato da humanidade com um troiano.
Calculando aqui a distância entre a sonda e o asteroide ao longo daquele dia, com passo de um minuto, o ponto mais próximo cai em 11 de agosto de 2027, às 19h42 UTC — 16h42 de Brasília, a 768 km do asteroide, com a Lucy passando a 5,79 km/s, ou quase 21 mil km/h.
A 21 mil km/h, um asteroide de 64 km atravessa a janela inteira em cerca de onze segundos. Por isso o sobrevoo é totalmente automático e ensaiado por anos: não dá para corrigir nada durante.
Eurybates tem uma companheira, a lua Queta, de cerca de 1 km. Antes do encontro está prevista uma queimada grande de motor, de 312,7 m/s, em 3 de abril de 2027, para colocar a sonda na mira. Como a trajetória ainda é previsão, os 768 km podem mudar quando essa manobra for executada e recalculada.

Como é a sonda, e o problema dos painéis
A Lucy é relativamente pequena: 821 kg secos e 1.550 kg abastecida. Sobre o tamanho total há duas medidas publicadas, e vale mostrar as duas: o arquivo do JPL registra 14,25 m de largura, e a página da missão na NASA fala em mais de 16 m de ponta a ponta. Uma mede a largura da estrutura, a outra o vão máximo com tudo aberto.
E aí está o desafio de engenharia da missão. Na distância de Júpiter, a luz do Sol é cerca de 27 vezes mais fraca que aqui. Para funcionar a painel solar tão longe, a Lucy carrega dois painéis circulares de 7,3 metros de diâmetro cada um — quase 42 metros quadrados de painel por disco, conta nossa —, e mesmo assim gera só 504 watts no encontro mais distante. É menos de um décimo do que puxa um chuveiro elétrico comum.
Missões que vão para ainda mais longe desistem do Sol e usam calor de material radioativo, caminho contado em Por que as sondas da NASA usam energia nuclear?. A Lucy ficou no limite do que um painel ainda dá conta.

Quantos asteroides são, afinal
Aqui vale mostrar uma divergência, porque ela aparece em qualquer pesquisa sobre a missão. A página da missão no site de ciência da NASA fala em 11 asteroides: três no cinturão principal e oito troianos. O arquivo de trajetória do JPL fala em sete sistemas de asteroides e "pelo menos nove objetos no total".
As duas contas estão certas e medem coisas diferentes. Uma conta corpos — e vários alvos são duplos, com lua, então cada visita rende dois. A outra conta sistemas, ou seja, paradas no itinerário. Como alguns satélites foram descobertos depois do lançamento, o número também subiu com o tempo: a lua de Dinkinesh, a Selam, só apareceu nas imagens durante o próprio sobrevoo, em 2023.
A regra que vale para qualquer notícia espacial é a de sempre: número sem definição não quer dizer nada. Pergunte sempre se estão contando corpos ou paradas.
O que a Lucy deve descobrir
Os troianos não se parecem entre si, e isso é a coisa mais estranha a respeito deles. Alguns são escuros e avermelhados, do tipo D; outros são acinzentados, do tipo C. Se todos tivessem se formado ali, seriam parecidos.
A suspeita é que eles vieram de lugares muito diferentes do Sistema Solar e foram capturados pelos pontos de Lagrange durante a bagunça da migração dos planetas gigantes — episódio que aparece em Como se formou o Sistema Solar? A história, passo a passo e que ainda é debate aberto. Se a Lucy confirmar essa variedade de perto, os troianos viram evidência direta de que os planetas mudaram de lugar.
Tem também uma curiosidade que sempre diverte: o alvo Leucus gira tão devagar que um dia lá dura 466 horas, mais de 19 dias terrestres. A sonda vai passar por ele em poucos minutos e mal verá o asteroide mudar de posição.



