Perguntas que todo mundo faz

Como nasce uma estrela? Da nuvem fria ao primeiro brilho

Uma estrela nasce quando uma nuvem fria de gás desaba sobre si mesma. Veja o passo a passo, quanto tempo leva e onde ver um berçário do Brasil.

Publicado em 8 min de leitura
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O centro da nebulosa de Órion em cores vivas, com nuvens alaranjadas e esverdeadas se abrindo a partir de um grupo de estrelas brancas brilhantes no meio
Foto: NASA/JPL-Caltech/STScI
Neste artigo
  1. Onde ficam os berçários
  2. O empurrão que começa tudo
  3. O caroço que esquenta sozinho
  4. Os jatos que entregam o parto
  5. O instante em que a estrela acende
  6. Quem não consegue acender
  7. Quantas estrelas nascem por ano
  8. Onde ver um berçário do Brasil

Uma estrela nasce quando uma nuvem gigante de gás frio desaba sobre si mesma e esquenta até o centro acender. É só isso, e leva milhões de anos. A gravidade aperta, o aperto esquenta, e quando a temperatura no miolo chega a milhões de graus, começa a fusão nuclear — e aquilo que era uma bola de gás escuro vira uma estrela.

Está acontecendo agora, enquanto você lê, em vários pontos da nossa galáxia. O berçário mais próximo fica a cerca de 1.500 anos-luz daqui, na constelação de Órion, e dá para vê-lo do quintal de casa no Brasil — explicamos como no fim do texto.

Onde ficam os berçários

Estrelas não nascem no vazio. Elas nascem dentro de nuvens moleculares: regiões enormes de gás e poeira, feitas quase só de hidrogênio, que boiam entre as estrelas já existentes.

São estruturas de um tamanho difícil de engolir. Segundo a NASA, uma nuvem dessas guarda de mil a 10 milhões de vezes a massa do Sol e pode se estender por centenas de anos-luz. Para ter ideia: a luz leva 8 minutos para vir do Sol até aqui, e levaria centenas de anos para atravessar uma dessas nuvens de ponta a ponta.

E, apesar de toda essa matéria, elas são frias e rarefeitas. Mais vazias do que qualquer vácuo que se consiga fabricar num laboratório na Terra. O que as torna especiais não é a densidade — é o tamanho. Pouca coisa por metro cúbico, mas tantos metros cúbicos que o total é absurdo.

É dentro desse breu que a história começa. O tipo de nuvem, e por que algumas brilham e outras são manchas pretas, está detalhado em O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.

O empurrão que começa tudo

Uma nuvem dessas pode ficar milhões de anos sem fazer nada. Ela está em equilíbrio: a gravidade puxa para dentro, a pressão do gás empurra para fora, e as duas se anulam.

O que quebra o empate é um empurrão de fora. Pode ser a onda de choque de uma estrela que explodiu na vizinhança, a passagem da nuvem por um braço espiral da galáxia, ou o encontro com outra nuvem. É como um copo cheio até a borda numa mesa de bar: ele fica ali, estável, até alguém esbarrar na mesa.

Depois do empurrão, partes da nuvem ficam um pouco mais densas que as vizinhas. E aí a física vira a favor do desastre: onde há mais matéria, há mais gravidade; onde há mais gravidade, chega mais matéria. O caroço cresce puxando o que está em volta.

A NASA descreve a etapa seguinte assim: alguns caroços se fundem ou ganham massa, a gravidade deles aumenta, e então eles desabam.

O caroço que esquenta sozinho

Aqui está o ponto que quase todo mundo erra ao imaginar: nada acende por fora. Não existe faísca, não existe fogo. O calor vem do próprio tombo.

Quando o material cai para o centro, os pedaços se chocam e se atritam, e atrito vira calor. É o mesmo princípio da pastilha de freio da bicicleta numa descida longa: você não acendeu nada, mas o aro fica quente demais para encostar a mão. Numa escala de nuvem interestelar, esse atrito aquece o miolo até ele começar a brilhar.

Esse caroço quente e brilhante, que ainda não é uma estrela, tem nome: protoestrela — "estrela em formação". Ela já emite luz, mas por aquecimento, não por fusão nuclear. A energia dela vem do tombo, e só.

Nessa fase, segundo a NASA, o caroço passa centenas de milhares de anos engordando, e começa a girar. O giro achata o material que ainda está caindo, formando um disco em volta da protoestrela. É desse disco que, mais tarde, podem sair planetas — foi exatamente o que aconteceu aqui, história contada em Como se formou o Sistema Solar? A história, passo a passo.

Uma estrela recém-nascida escondida atrás de uma faixa escura de poeira, disparando dois jatos de luz em direções opostas, formando um X alaranjado contra nuvens escuras
Uma estrela recém-nascida fotografada pelo Hubble. A faixa escura no meio é o disco de poeira que a esconde; os dois jatos saem pelos polos, as únicas saídas que sobram. É assim que se descobre uma protoestrela que ninguém consegue ver diretamente. Foto: NASA/GSFC

Os jatos que entregam o parto

A protoestrela fica escondida. O disco de poeira em volta é opaco, e quem olha de fora não vê a estrela — vê um caroço escuro.

Só que ela denuncia a própria posição de um jeito espetacular: dispara dois jatos de matéria em direções opostas, pelos polos, que é por onde o disco não atrapalha. Esses jatos atravessam a nuvem a centenas de quilômetros por segundo e varrem um corredor de gás que fica brilhando.

A foto acima é um desses casos. O "X" de luz não é efeito de câmera: são dois jorros de matéria saindo de uma estrela que ainda nem acendeu direito, e que só puderam ser fotografados porque a poeira em volta reflete essa luz. Quando um astrônomo encontra um par de jatos assim, ele sabe que tem uma estrela nascendo ali atrás — mesmo sem enxergá-la.

O instante em que a estrela acende

A protoestrela continua encolhendo e esquentando por milhões de anos. Até que, no centro dela, a temperatura e a pressão chegam ao ponto em que os núcleos de hidrogênio param de se desviar uns dos outros e passam a se fundir, formando hélio e liberando energia. Isso é a fusão nuclear, e é o que define uma estrela.

Para ter uma régua: no núcleo do Sol, onde a fusão acontece hoje, a temperatura passa de 15 milhões de graus Celsius e a densidade é de cerca de 150 gramas por centímetro cúbico — quase oito vezes a densidade do ouro, só que em forma de gás comprimido.

A partir desse momento, a estrela encontra o equilíbrio que vai durar a vida inteira: a energia da fusão empurra de dentro para fora e segura a gravidade, que empurra de fora para dentro. É esse cabo de guerra que mantém o Sol estável há 4,6 bilhões de anos. Quando o combustível acaba, o cabo de guerra também acaba — e aí começa a outra história, a de O que sobra quando uma estrela morre?.

Quem não consegue acender

Nem todo caroço vira estrela. Existe um peso mínimo para a fusão começar, e quem não atinge fica pelo caminho.

Os objetos que param logo abaixo dessa linha de corte se chamam anãs marrons. A NASA as define como corpos com 13 a 80 vezes a massa de Júpiter: grandes demais para serem planetas, pequenos demais para serem estrelas. Elas brilham um pouco, de calor residual, e vão esfriando para sempre. São uma espécie de estrela reprovada no vestibular por décimos.

O nosso próprio Júpiter é um caso parecido, muito mais abaixo da linha — o porquê está em Por que Júpiter não é uma estrela?.

Do outro lado da balança, a faixa é larguíssima. As estrelas que estão fundindo hidrogênio hoje — a NASA diz que são cerca de 90% de todas as estrelas do universo — vão de um décimo até 200 vezes a massa do Sol. E a massa decide tudo o que vem depois: as menores, as anãs vermelhas, podem queimar por até 14 trilhões de anos, muito mais do que a idade atual do universo. As maiores torram o combustível em poucos milhões de anos. Os extremos dessa escala estão em Qual é a maior estrela do universo? E por que o Sol é pequeno.

Quantas estrelas nascem por ano

A Via Láctea fabrica hoje, segundo a NASA, o equivalente a um Sol por ano. Um.

Numa galáxia com mais de 100 bilhões de estrelas, é uma taxa de natalidade ridícula — como uma cidade de 100 bilhões de habitantes ganhando um morador por ano. A galáxia já foi bem mais fértil: no passado, esse ritmo chegou a ser até 100 vezes maior.

Ou seja, estamos vivendo na meia-idade tranquila da Via Láctea. O gás disponível para fazer estrelas novas está acabando, e o processo vai desacelerando.

Onde ver um berçário do Brasil

Esta é a melhor parte: o maior berçário de estrelas perto de nós é visível a olho nu do Brasil inteiro.

A nebulosa de Órion fica a cerca de 1.500 anos-luz e tem brilho suficiente (magnitude 4) para aparecer como uma mancha difusa num céu escuro. Ela está logo abaixo das Três Marias, no que a tradição chama de "espada" de Órion. A NASA indica janeiro como o melhor mês para observá-la — e, para quem está no Brasil, Órion aparece bem alto no céu de dezembro a março, o que é uma vantagem enorme sobre o hemisfério norte, onde ela fica baixa no horizonte.

Com um binóculo comum, a mancha vira uma nuvem com formato. No meio dela estão quatro estrelas jovens e massivas, o chamado Trapézio, cuja luz ultravioleta é tão violenta que está atrapalhando o crescimento de centenas de estrelas menores à volta — os irmãos caçulas que podem nunca chegar ao tamanho que teriam.

Para achar Órion no céu sem app nenhum, o passo a passo está em As Três Marias e Órion: como achar no céu do Brasil.

A nebulosa de Órion vista em infravermelho, com nuvens esverdeadas se espalhando a partir de um núcleo branco brilhante, num fundo salpicado de estrelas azuis
A mesma nebulosa de Órion, vista pelo telescópio WISE em luz infravermelha. As cores não são as que o olho veria: o infravermelho é invisível para nós, e aqui ele foi convertido em verde e vermelho para que a poeira aquecida pelas estrelas novas aparecesse. Foto: NASA/JPL-Caltech/UCLA

Perguntas frequentes

Como nasce uma estrela, em poucas palavras?

Uma nuvem fria de gás, quase toda de hidrogênio, recebe um empurrão e desaba sobre si mesma por gravidade. O material que cai se atrita e esquenta, formando um caroço quente chamado protoestrela. Quando o centro desse caroço chega a milhões de graus, começa a fusão nuclear do hidrogênio — e aí ela é oficialmente uma estrela.

Quanto tempo leva para uma estrela se formar?

Milhões de anos. A fase de protoestrela, em que o caroço engorda e começa a girar, dura centenas de milhares de anos, segundo a NASA, e a fusão nuclear só começa depois de milhões de anos de aperto e aquecimento. Nenhuma etapa é rápida o bastante para ser vista acontecendo: o que os astrônomos fazem é observar muitas estrelas em estágios diferentes.

As estrelas nascem sozinhas ou em grupo?

Quase sempre em grupo. A mesma nuvem gera vários caroços ao mesmo tempo, e por isso as estrelas novas aparecem em aglomerados, como o Trapézio no meio da nebulosa de Órion. Com o tempo, a gravidade da galáxia vai separando as irmãs, que acabam cada uma numa órbita própria.

Ainda nascem estrelas hoje?

Sim. A Via Láctea produz hoje o equivalente a um Sol por ano, segundo a NASA — bem menos do que no passado, quando o ritmo chegou a ser até 100 vezes maior. O gás disponível vai acabando, e a galáxia fabrica cada vez menos estrelas novas.

Dá para ver uma estrela nascendo com telescópio de amador?

Não a estrela em si, que fica escondida atrás da poeira, mas dá para ver o berçário. A nebulosa de Órion aparece a olho nu num céu escuro e vira uma nuvem com formato em qualquer binóculo. O que um telescópio de amador mostra é a nuvem e o grupo de estrelas jovens no meio dela, não o processo acontecendo.

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