O GALEX foi um telescópio espacial pequeno, do tamanho de uma geladeira de solteiro, que passou dez anos fotografando o céu inteiro numa luz que ninguém enxerga: o ultravioleta. Ele foi lançado em 28 de abril de 2003 para trabalhar 29 meses e só foi desligado em 28 de junho de 2013 — quase quatro vezes o prazo. No meio do caminho, observou centenas de milhões de galáxias, cobrindo 10 bilhões de anos de história do universo.
O nome é a abreviação de Galaxy Evolution Explorer, "explorador da evolução das galáxias". E a pergunta que ele existia para responder era essa mesma: quando, e com que força, as galáxias fabricaram as suas estrelas?
Por que ultravioleta, e por que só do espaço
O ultravioleta é a luz logo depois do violeta na escala das cores — a mesma faixa que queima a pele na praia e contra a qual o protetor solar existe. Os olhos humanos não a captam.
Para a astronomia, ela tem uma utilidade muito específica: quem brilha em ultravioleta é estrela jovem. Estrelas recém-formadas são quentes e despejam a maior parte da energia nessa faixa; estrelas velhas, como o Sol, brilham mais no amarelo e no vermelho. Fotografar uma galáxia em ultravioleta é, na prática, fotografar só os berçários dela — o resto quase some do quadro. Por que a cor de uma estrela denuncia a idade e a temperatura dela está explicado em Por que as estrelas têm cores diferentes?.
O problema é que a atmosfera da Terra bloqueia o ultravioleta. Ótimo para a pele, péssimo para o astrônomo: não adianta levar o telescópio para o alto de uma montanha, porque ainda sobra atmosfera demais. Só indo para fora dela.
O telescópio, em números
| Item | Valor |
|---|---|
| Lançamento | 28 de abril de 2003 |
| Desligamento | 28 de junho de 2013 |
| Espelho principal | 50 cm de diâmetro |
| Massa | 280 kg |
| Potência elétrica | 290 watts |
| Órbita | 670 km de altitude, circular |
| Faixa do ultravioleta distante | 135 a 174 nanômetros |
| Faixa do ultravioleta próximo | 175 a 280 nanômetros |
| Missão prevista | 29 meses |
| Missão real | 10 anos, com três prorrogações |
Vale parar no espelho: 50 centímetros. É o diâmetro de uma roda de bicicleta pequena, menos de um quarto do espelho do Hubble, que tem 2,4 metros. O GALEX nunca foi um telescópio de tirar foto bonita de um alvo — ele era um telescópio de varrer, feito para passar o céu inteiro a limpo com um instrumento barato. Para comparar com o irmão famoso, vale o Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.
Os 290 watts de potência também dizem muito: é menos do que gasta uma televisão de sala. A massa de 280 kg é a de quatro pessoas adultas.

Dois olhos de uma vez, com uma peça inédita
Dentro do GALEX havia um truque que nunca tinha voado antes: um divisor de feixe dicroico para ultravioleta, uma peça que recebe a luz que entra e a separa em duas partes, mandando cada uma para um detector diferente.
Pense num bebedouro que divide a água entre dois copos ao mesmo tempo. Era isso, mas com luz: o ultravioleta mais energético ia para um sensor, o menos energético ia para outro, e os dois registravam a mesma cena simultaneamente. Cada detector tinha 65 milímetros de diâmetro — do tamanho de uma tampa de pote de maionese.
Na prática, isso dobrava o rendimento de cada minuto de observação. Em um telescópio pequeno, com missão curta e orçamento de programa Explorer — o programa das missões mais baratas da NASA —, esse tipo de economia é o que decide se a conta fecha. Como a agência escolhe e financia missões desse porte está em Como a NASA escolhe qual missão vai existir.
O foguete que cai de debaixo de um avião
O GALEX não subiu de uma plataforma de lançamento. Ele foi ao espaço num Pegasus XL, um foguete pequeno que é levado preso sob a barriga de um avião, solto em pleno voo e só então acende os motores.
A lógica é simples e brasileira de entender: o avião faz de graça o trecho mais caro da subida, que é atravessar a parte baixa e densa da atmosfera. É como começar a subir a serra já na metade do caminho, com o tanque cheio. Para cargas pequenas, sai bem mais barato do que um foguete convencional.
A primeira luz, e o campo profundo
Todo telescópio tem um momento de "primeira luz": a hora em que ele abre o olho pela primeira vez. A do GALEX foi em 21 e 22 de maio de 2003, apontado para a constelação de Hércules. A imagem do canal de ultravioleta distante mostrou cerca de 400 objetos celestes — pontinhos esparsos num fundo quase preto, porque nessa luz a maior parte do céu simplesmente não brilha.
Um mês depois veio a demonstração do que ele sabia fazer. Em 22 e 23 de junho de 2003, o telescópio somou várias passagens sobre a mesma região do céu até acumular 14 mil segundos de exposição — quase quatro horas com o olho aberto no mesmo ponto. O resultado tem dezenas de milhares de objetos num único quadro redondo.

O que ele descobriu
Em dez anos, o acervo rendeu resultados que não estavam no plano original:
- O rastro de Mira. A estrela Mira, velha e instável, está atravessando a galáxia tão depressa que deixa para trás um rastro de material, como um cometa. Ninguém sabia disso: o rastro só aparece em ultravioleta.
- Um buraco negro flagrado comendo uma estrela. O brilho repentino de um evento desses dura pouco e é forte no ultravioleta — exatamente o tipo de coisa que só se pega quem vigia o céu todo, e não um alvo de cada vez.
- Anéis de estrelas novas em galáxias velhas. Galáxias consideradas "mortas", que teriam parado de fabricar estrelas, apareceram com anéis externos brilhando de estrelas recém-nascidas.
- Uma confirmação independente da energia escura. O levantamento de galáxias do GALEX entrou como peça de verificação de um dos resultados mais desconfortáveis da cosmologia: o de que a expansão do universo está acelerando.
- O elo perdido das galáxias "adolescentes", o estágio em que uma galáxia jovem começa a virar velha.
Vale uma ressalva honesta: nenhuma dessas descobertas é do GALEX sozinho. Em astronomia moderna, um resultado quase sempre junta dados de vários telescópios. O papel dele costumava ser o de fornecer o mapa onde os outros foram procurar.
Como se desliga um telescópio
Em 28 de junho de 2013, às 15h09 no horário da costa leste dos Estados Unidos — 16h09 em Brasília —, operadores em Dulles, no estado da Virgínia, enviaram o comando que desativou o GALEX. Ele já tinha sido prorrogado três vezes.
O satélite não caiu. Ele continua lá em cima, inerte, e a estimativa da NASA é que fique em órbita por pelo menos 65 anos antes de reentrar e queimar na atmosfera. É o destino padrão de quem trabalha a 670 km de altitude, assunto de O que a NASA faz com um satélite quando ele se aposenta.
O que ficou foi o acervo. Vinte anos depois, as imagens do GALEX continuam sendo baixadas e reanalisadas — inclusive as fotos de Andrômeda que ilustram as notícias sobre a galáxia vizinha, tema de A Via Láctea vai colidir com Andrômeda?. Esse é o fim normal de uma missão científica: o telescópio morre, os dados não. O caminho que esses arquivos seguem está contado em O que a NASA faz com os dados quando a missão acaba.
E existe um sucessor a caminho: o UVEX, confirmado pela NASA em 27 de outubro de 2026, que vai refazer o mapa do céu em ultravioleta com muito mais profundidade. A história dele está em O que é o UVEX, o telescópio ultravioleta da NASA.




