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GALEX: o telescópio que mapeou o céu em ultravioleta

Ele foi lançado de debaixo de um avião em 2003 para durar 29 meses e trabalhou 10 anos, vendo centenas de milhões de galáxias numa luz invisível.

Publicado em 7 min de leitura
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O telescópio espacial GALEX sobre um suporte de trabalho em sala limpa, com três técnicos de macacão branco ao redor ajustando a estrutura dourada do satélite
Foto: NASA/KSC
Neste artigo
  1. Por que ultravioleta, e por que só do espaço
  2. O telescópio, em números
  3. Dois olhos de uma vez, com uma peça inédita
  4. O foguete que cai de debaixo de um avião
  5. A primeira luz, e o campo profundo
  6. O que ele descobriu
  7. Como se desliga um telescópio

O GALEX foi um telescópio espacial pequeno, do tamanho de uma geladeira de solteiro, que passou dez anos fotografando o céu inteiro numa luz que ninguém enxerga: o ultravioleta. Ele foi lançado em 28 de abril de 2003 para trabalhar 29 meses e só foi desligado em 28 de junho de 2013 — quase quatro vezes o prazo. No meio do caminho, observou centenas de milhões de galáxias, cobrindo 10 bilhões de anos de história do universo.

O nome é a abreviação de Galaxy Evolution Explorer, "explorador da evolução das galáxias". E a pergunta que ele existia para responder era essa mesma: quando, e com que força, as galáxias fabricaram as suas estrelas?

Por que ultravioleta, e por que só do espaço

O ultravioleta é a luz logo depois do violeta na escala das cores — a mesma faixa que queima a pele na praia e contra a qual o protetor solar existe. Os olhos humanos não a captam.

Para a astronomia, ela tem uma utilidade muito específica: quem brilha em ultravioleta é estrela jovem. Estrelas recém-formadas são quentes e despejam a maior parte da energia nessa faixa; estrelas velhas, como o Sol, brilham mais no amarelo e no vermelho. Fotografar uma galáxia em ultravioleta é, na prática, fotografar só os berçários dela — o resto quase some do quadro. Por que a cor de uma estrela denuncia a idade e a temperatura dela está explicado em Por que as estrelas têm cores diferentes?.

O problema é que a atmosfera da Terra bloqueia o ultravioleta. Ótimo para a pele, péssimo para o astrônomo: não adianta levar o telescópio para o alto de uma montanha, porque ainda sobra atmosfera demais. Só indo para fora dela.

O telescópio, em números

Item Valor
Lançamento 28 de abril de 2003
Desligamento 28 de junho de 2013
Espelho principal 50 cm de diâmetro
Massa 280 kg
Potência elétrica 290 watts
Órbita 670 km de altitude, circular
Faixa do ultravioleta distante 135 a 174 nanômetros
Faixa do ultravioleta próximo 175 a 280 nanômetros
Missão prevista 29 meses
Missão real 10 anos, com três prorrogações

Vale parar no espelho: 50 centímetros. É o diâmetro de uma roda de bicicleta pequena, menos de um quarto do espelho do Hubble, que tem 2,4 metros. O GALEX nunca foi um telescópio de tirar foto bonita de um alvo — ele era um telescópio de varrer, feito para passar o céu inteiro a limpo com um instrumento barato. Para comparar com o irmão famoso, vale o Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.

Os 290 watts de potência também dizem muito: é menos do que gasta uma televisão de sala. A massa de 280 kg é a de quatro pessoas adultas.

O satélite GALEX deitado numa bancada de sala limpa, coberto por manta térmica dourada, com a tampa do telescópio aberta mostrando a abertura escura do instrumento e técnicos de macacão azul ao fundo
A tampa do telescópio aberta em Cabo Canaveral, em fevereiro de 2003, durante a verificação do mecanismo. A manta dourada é isolamento térmico; o buraco escuro à direita é por onde a luz entrava. Foto: NASA/KSC

Dois olhos de uma vez, com uma peça inédita

Dentro do GALEX havia um truque que nunca tinha voado antes: um divisor de feixe dicroico para ultravioleta, uma peça que recebe a luz que entra e a separa em duas partes, mandando cada uma para um detector diferente.

Pense num bebedouro que divide a água entre dois copos ao mesmo tempo. Era isso, mas com luz: o ultravioleta mais energético ia para um sensor, o menos energético ia para outro, e os dois registravam a mesma cena simultaneamente. Cada detector tinha 65 milímetros de diâmetro — do tamanho de uma tampa de pote de maionese.

Na prática, isso dobrava o rendimento de cada minuto de observação. Em um telescópio pequeno, com missão curta e orçamento de programa Explorer — o programa das missões mais baratas da NASA —, esse tipo de economia é o que decide se a conta fecha. Como a agência escolhe e financia missões desse porte está em Como a NASA escolhe qual missão vai existir.

O foguete que cai de debaixo de um avião

O GALEX não subiu de uma plataforma de lançamento. Ele foi ao espaço num Pegasus XL, um foguete pequeno que é levado preso sob a barriga de um avião, solto em pleno voo e só então acende os motores.

A lógica é simples e brasileira de entender: o avião faz de graça o trecho mais caro da subida, que é atravessar a parte baixa e densa da atmosfera. É como começar a subir a serra já na metade do caminho, com o tanque cheio. Para cargas pequenas, sai bem mais barato do que um foguete convencional.

A primeira luz, e o campo profundo

Todo telescópio tem um momento de "primeira luz": a hora em que ele abre o olho pela primeira vez. A do GALEX foi em 21 e 22 de maio de 2003, apontado para a constelação de Hércules. A imagem do canal de ultravioleta distante mostrou cerca de 400 objetos celestes — pontinhos esparsos num fundo quase preto, porque nessa luz a maior parte do céu simplesmente não brilha.

Um mês depois veio a demonstração do que ele sabia fazer. Em 22 e 23 de junho de 2003, o telescópio somou várias passagens sobre a mesma região do céu até acumular 14 mil segundos de exposição — quase quatro horas com o olho aberto no mesmo ponto. O resultado tem dezenas de milhares de objetos num único quadro redondo.

Imagem circular alaranjada coberta por milhares de pontos de luz de tamanhos diferentes, com um traço alongado no canto superior direito, sobre fundo preto
O primeiro campo profundo do GALEX, de junho de 2003: quase quatro horas de exposição somadas. Cada pontinho é um objeto que brilha em ultravioleta. O campo é redondo porque esse era o formato do campo de visão do instrumento. Foto: NASA/JPL/Caltech

O que ele descobriu

Em dez anos, o acervo rendeu resultados que não estavam no plano original:

  • O rastro de Mira. A estrela Mira, velha e instável, está atravessando a galáxia tão depressa que deixa para trás um rastro de material, como um cometa. Ninguém sabia disso: o rastro só aparece em ultravioleta.
  • Um buraco negro flagrado comendo uma estrela. O brilho repentino de um evento desses dura pouco e é forte no ultravioleta — exatamente o tipo de coisa que só se pega quem vigia o céu todo, e não um alvo de cada vez.
  • Anéis de estrelas novas em galáxias velhas. Galáxias consideradas "mortas", que teriam parado de fabricar estrelas, apareceram com anéis externos brilhando de estrelas recém-nascidas.
  • Uma confirmação independente da energia escura. O levantamento de galáxias do GALEX entrou como peça de verificação de um dos resultados mais desconfortáveis da cosmologia: o de que a expansão do universo está acelerando.
  • O elo perdido das galáxias "adolescentes", o estágio em que uma galáxia jovem começa a virar velha.

Vale uma ressalva honesta: nenhuma dessas descobertas é do GALEX sozinho. Em astronomia moderna, um resultado quase sempre junta dados de vários telescópios. O papel dele costumava ser o de fornecer o mapa onde os outros foram procurar.

Como se desliga um telescópio

Em 28 de junho de 2013, às 15h09 no horário da costa leste dos Estados Unidos — 16h09 em Brasília —, operadores em Dulles, no estado da Virgínia, enviaram o comando que desativou o GALEX. Ele já tinha sido prorrogado três vezes.

O satélite não caiu. Ele continua lá em cima, inerte, e a estimativa da NASA é que fique em órbita por pelo menos 65 anos antes de reentrar e queimar na atmosfera. É o destino padrão de quem trabalha a 670 km de altitude, assunto de O que a NASA faz com um satélite quando ele se aposenta.

O que ficou foi o acervo. Vinte anos depois, as imagens do GALEX continuam sendo baixadas e reanalisadas — inclusive as fotos de Andrômeda que ilustram as notícias sobre a galáxia vizinha, tema de A Via Láctea vai colidir com Andrômeda?. Esse é o fim normal de uma missão científica: o telescópio morre, os dados não. O caminho que esses arquivos seguem está contado em O que a NASA faz com os dados quando a missão acaba.

E existe um sucessor a caminho: o UVEX, confirmado pela NASA em 27 de outubro de 2026, que vai refazer o mapa do céu em ultravioleta com muito mais profundidade. A história dele está em O que é o UVEX, o telescópio ultravioleta da NASA.

Perguntas frequentes

O que foi o GALEX?

Foi um telescópio espacial da NASA que observou o céu em luz ultravioleta entre 2003 e 2013. Com um espelho de 50 cm e 280 kg, ele fez o primeiro levantamento amplo do céu nessa faixa de luz e observou centenas de milhões de galáxias, com o objetivo de descobrir quando elas fabricaram suas estrelas.

Por que um telescópio de ultravioleta precisa ficar no espaço?

Porque a atmosfera da Terra bloqueia quase toda a luz ultravioleta que vem do espaço. É a mesma barreira que protege a nossa pele da radiação do Sol. Nenhum telescópio no chão, por mais alto que esteja a montanha, consegue enxergar nessa faixa — só instrumentos acima da atmosfera.

O GALEX ainda está em órbita?

Está, mas desligado desde 28 de junho de 2013. Ele não foi derrubado de propósito: a estimativa da NASA é que o satélite permaneça em órbita por pelo menos 65 anos antes de reentrar na atmosfera e queimar.

Por que ele durou tanto mais do que o previsto?

A missão nominal era de 29 meses, e foi prorrogada três vezes. Isso é comum quando o equipamento continua saudável e os dados seguem rendendo resultados: a NASA avalia periodicamente se vale a pena continuar pagando a operação. O GALEX passou nessa avaliação três vezes seguidas, até completar dez anos de trabalho.

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