Perguntas que todo mundo faz

O que é plasma, o quarto estado da matéria?

Plasma é o gás tão quente que os elétrons se soltam dos átomos. Ele forma as estrelas, a aurora e o raio, e é quase toda a matéria visível.

Publicado em 7 min de leitura
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Borda do Sol em laranja com uma grande lâmina de plasma saindo para o espaço escuro
Foto: NASA/GSFC/Solar Dynamics Observatory
Neste artigo
  1. Os três estados que você aprendeu, e o quarto
  2. O que muda quando o gás vira plasma
  3. Por que quase todo o universo visível é plasma
  4. O plasma que você já viu sem saber
  5. A aurora, que é plasma brigando com plasma
  6. Plasma feito por gente, inclusive para empurrar naves
  7. Como saber se uma coisa é plasma

Plasma é um gás tão quente que os elétrons se soltam dos átomos. Quando isso acontece, o gás deixa de ser neutro e passa a ser eletricamente carregado — e tudo muda. Ele começa a obedecer a ímãs, a se enrolar em fios de campo magnético e a brilhar. A NASA trata o plasma como um estado da matéria à parte, ao lado de sólido, líquido e gasoso, e diz que ele forma mais de 99% da matéria diretamente observável do universo. Na Terra ele é raro. Lá fora, é quase tudo.

Os três estados que você aprendeu, e o quarto

Na escola a gente aprende três: sólido, líquido e gasoso. A água é o exemplo de sempre. Gelo é sólido, porque as moléculas estão presas em posição. Derrete e vira líquido, porque elas escorregam umas sobre as outras mas continuam grudadas. Ferve e vira vapor, porque elas se soltam de vez e saem voando.

A conta não para aí. Se você continuar aquecendo esse vapor, muito além da temperatura do fogão, chega um ponto em que a violência das batidas entre as partículas arranca os elétrons de dentro dos átomos.

Vale explicar o que é isso. Um átomo tem um núcleo com carga positiva no centro e elétrons com carga negativa girando em volta. Como as duas cargas se cancelam, o átomo inteiro é neutro — ele não é atraído nem repelido por um ímã. Quando um elétron escapa, sobram duas coisas soltas e carregadas: o elétron negativo e o resto do átomo, agora positivo. Esse "resto" tem nome: íon. E o gás que virou uma mistura de íons e elétrons livres tem nome também: plasma.

A NASA descreve o processo em uma frase curta: o plasma se forma quando os átomos de um gás são ionizados, ou seja, quando os elétrons se separam do átomo e passam a andar por conta própria.

Estado O que as partículas fazem Exemplo do dia a dia
Sólido Presas em posição, só vibram Gelo, pedra, ferro
Líquido Soltas, mas ainda grudadas Água, óleo
Gasoso Soltas e voando, átomos inteiros Vapor, o ar da sala
Plasma Elétrons arrancados dos átomos Raio, lâmpada fluorescente, o Sol

O que muda quando o gás vira plasma

Essa é a parte que importa, e é a razão de o plasma ganhar um nome próprio em vez de ser chamado só de "gás muito quente".

Um gás comum é cego para campos magnéticos. Passe um ímã perto do ar da sua sala e nada acontece. Já o plasma é feito de pedaços carregados, e partícula carregada em movimento sente campo magnético na hora. Nas palavras da NASA, isso torna os plasmas eletricamente carregados e capazes de interagir com campos elétricos e magnéticos de fora.

Na prática, o plasma se comporta como se estivesse amarrado às linhas de campo magnético. Ele corre por elas como água numa mangueira, forma arcos, se torce e, quando o campo se rearranja de repente, dispara quantidades absurdas de energia. É assim que nasce uma erupção solar — o assunto está detalhado em O que é uma erupção solar classe X?.

A foto que abre este artigo mostra exatamente isso: uma lâmina de plasma erguida sobre a borda do Sol, em luz ultravioleta extrema, em 28 de julho de 2017. Parte do material escapou para o espaço e parte caiu de volta, presa pela gravidade e pelos campos magnéticos. A cor é falsa: o olho humano não enxerga esse comprimento de onda.

Por que quase todo o universo visível é plasma

Toda estrela é uma bola de plasma. E como as estrelas concentram a maior parte da matéria comum que conseguimos enxergar, a conta pende de forma esmagadora para esse lado. A NASA escreve que, embora seja raro na Terra, o plasma forma mais de 99% da matéria diretamente observável do universo, incluindo cada estrela e boa parte do material entre elas.

Aqui entra um cuidado que muita reportagem esquece, e vale a pena guardar. A frase não é "99% do universo". É 99% da matéria diretamente observável — a NASA faz questão de escrever, entre parênteses, "ou seja, não escura". Acontece que a maior parte do universo não é feita de matéria comum: é matéria escura e energia escura, que ninguém enxerga e que não são plasma. Então o número certo é: de tudo que podemos apontar um telescópio e ver, mais de 99% é plasma. Do universo inteiro, não.

O Sol é o exemplo mais próximo. A superfície visível dele fica por volta de 5.500 °C, e a coroa, aquela atmosfera externa que só aparece em eclipse total, chega a 2 milhões de °C. Nos dois casos, o que está lá é plasma. A ficha completa da nossa estrela está em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância.

E o Sol não guarda esse plasma só para ele. Um fluxo constante escapa em todas as direções e banha o Sistema Solar inteiro, inclusive a Terra. Esse vento é plasma puro, e está explicado em O que é o vento solar? O sopro que vem do Sol.

O plasma que você já viu sem saber

Não é preciso ir ao espaço. A própria NASA lista três exemplos terrestres: lâmpadas fluorescentes, tochas usadas para trabalhar metal e raios.

Os três estão no seu dia a dia. Aquela lâmpada tubular branca da cozinha, da garagem ou do corredor da escola funciona porque uma descarga elétrica transforma o gás de dentro do tubo em plasma, e esse plasma emite luz. O maçarico de plasma do serralheiro corta chapa de aço pelo mesmo princípio. E o raio é o exemplo mais espetacular: um canal de ar que virou plasma por alguns milésimos de segundo, tão quente que estoura o ar em volta e produz o trovão.

Os raios, aliás, rendem fenômenos ainda mais estranhos nas camadas altas da atmosfera, e eles estão reunidos em O que são os raios que sobem para o espaço?.

Brilho vermelho de aurora no céu noturno atrás das torres de para-raios de uma plataforma de lançamento
Aurora vista do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, em 11 de novembro de 2025. O brilho aparece quando partículas carregadas vindas do campo magnético da Terra descem e batem no ar lá em cima. Foto: NASA/Ben Smegelsky

A aurora, que é plasma brigando com plasma

A aurora é o encontro das duas pontas desta história. O vento solar, que é plasma, chega à Terra e esbarra no campo magnético do planeta. Parte dessas partículas carregadas acaba descendo pelas regiões polares e batendo nos átomos da alta atmosfera, a mais de 100 km de altura. Cada batida dessas excita um átomo, que devolve a energia em forma de luz. Verde, vermelho, roxo, conforme o gás atingido e a altura.

É por isso que a aurora aparece nos polos e não no Equador: o campo magnético funciona como um funil. O que ela é, por que acontece e se algum dia dá para vê-la daqui está em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.

Plasma feito por gente, inclusive para empurrar naves

Laboratórios produzem plasma de propósito há décadas, em câmaras onde se controla a pressão e a corrente elétrica. Serve para testar materiais, estudar como uma nave aguenta o ambiente espacial e desenvolver motores.

E aqui o plasma deixa de ser objeto de estudo e vira ferramenta. Existe uma família de motores de nave que funciona ionizando um gás e cuspindo esse plasma para trás a velocidades altíssimas. O empurrão é fraquíssimo, comparável ao peso de uma folha de papel na palma da mão, mas é constante e dura anos — e no vácuo isso ganha de qualquer foguete químico no longo prazo. O funcionamento está em O que é um propulsor Hall e por que ele empurra tão fraco.

Pesquisador de camisa listrada opera um painel ao lado de uma câmara cilíndrica metálica aberta num laboratório
Uma câmara de plasma sendo preparada para um teste no Centro Marshall, da NASA, em janeiro de 2016. Equipamentos assim permitem reproduzir em terra o ambiente que um satélite encontra em órbita. Foto: EMMETT GIVEN

Como saber se uma coisa é plasma

Três perguntas resolvem quase todos os casos. A matéria está na forma de gás? Esse gás teve elétrons arrancados dos átomos, ou seja, está ionizado? E o conjunto responde a campos elétricos e magnéticos?

Se as três respostas forem sim, é plasma. Chama de vela comum, por exemplo, fica numa zona cinzenta: é quente e tem alguma ionização, mas muito pouca, e por isso não se comporta como plasma de verdade. Já o arco de uma solda elétrica, esse não deixa dúvida.

Um último detalhe que ajuda a fixar: plasma não precisa ser quente no sentido do dia a dia. O que ele precisa é ter os elétrons separados dos átomos. Existe plasma muito rarefeito e muito frio no espaço entre as estrelas, e existe plasma a milhões de graus na coroa solar. O que define o estado é a separação das cargas, não o termômetro.

Perguntas frequentes

O que é plasma, em palavras simples?

É um gás que ficou tão energizado que os elétrons se soltaram dos átomos. O resultado é uma mistura de elétrons e íons livres, eletricamente carregada, que responde a ímãs e costuma brilhar. A NASA considera o plasma um estado da matéria distinto de sólido, líquido e gasoso.

Qual é a diferença entre gás e plasma?

No gás os átomos estão inteiros e neutros, então ele ignora campos magnéticos. No plasma os elétrons estão soltos, o que torna o conjunto carregado e faz com que ele seja conduzido e moldado por campos elétricos e magnéticos. É essa diferença de comportamento que justifica um nome separado.

O plasma é mesmo 99% do universo?

Não exatamente, e vale usar a frase certa. A NASA diz mais de 99% da matéria diretamente observável, deixando de fora a matéria escura. Como a maior parte do universo é matéria escura e energia escura, que não são plasma, dizer "99% do universo" é impreciso.

Onde existe plasma na Terra?

Em raios, em lâmpadas fluorescentes e em tochas e maçaricos usados para cortar metal, segundo a lista da própria NASA. Também na aurora, nas camadas altas da atmosfera e dentro de equipamentos de laboratório e de motores de nave que funcionam à base de plasma.

Plasma é sempre quente?

Não no sentido comum da palavra. O que define o plasma é ter os elétrons separados dos átomos, não a temperatura. Existe plasma muito frio e rarefeito no espaço entre as estrelas, e existe plasma a milhões de graus na coroa do Sol.

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