Perguntas que todo mundo faz

Para onde vão os icebergs gigantes da Antártida?

Eles seguem sempre o mesmo caminho e quase sempre morrem no mesmo lugar. Em outubro de 2026, um do tamanho de São Paulo chegou lá. Veja a rota.

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Vista de satélite de um iceberg gigante recém-separado da geleira Pine Island, na Antártida, com uma faixa de mar escuro aberta entre o bloco branco e a geleira
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. Antes de tudo: iceberg não é mar congelado
  2. O caso de outubro de 2026: o A-81 chegou
  3. De onde ele veio: uma fenda de 35 anos
  4. Por que eles têm nome de placa de carro
  5. Por que todos acabam na Geórgia do Sul
  6. O fim do A-23A, que durou quase 40 anos
  7. Isso é normal ou é sinal de alguma coisa?

Os icebergs gigantes da Antártida quase sempre fazem a mesma viagem: saem da costa, dão uma volta lenta no sentido horário pelo Mar de Weddell, sobem para o norte e vão morrer perto de uma ilha pequena e remota chamada Geórgia do Sul. O caminho é tão repetido que os cientistas o chamam de "beco dos icebergs". Em outubro de 2026, mais um chegou lá: o A-81, uma placa de gelo com cerca de 1.550 quilômetros quadrados — pouco maior que a cidade de São Paulo inteira.

Essa é a resposta curta. A longa tem fendas que levam décadas para abrir, nomes que parecem placa de carro e um final que quase sempre é o mesmo.

Antes de tudo: iceberg não é mar congelado

Confusão comum, e vale resolver em duas frases.

Gelo marinho é água do mar que congelou. Ele se forma no próprio oceano, no inverno, e derrete no verão.

Iceberg é um pedaço que se quebrou de uma geleira ou de uma plataforma de gelo apoiada em terra. Ou seja: é água doce, feita de neve que caiu e se acumulou durante milhares de anos, boiando num mar salgado. A diferença é explicada em detalhe em Por que o gelo do mar não é salgado?.

Os gigantes antárticos têm ainda um formato próprio: são tabulares, ou seja, chapados, de topo plano, parecidos com uma mesa boiando. Esse tipo praticamente não existe no hemisfério norte — o iceberg que afundou o Titanic era de outra família, irregular e pontudo, vindo da Groenlândia.

Um iceberg tabular gigante, uma placa branca de topo plano, boiando sozinho no mar azul-escuro do Atlântico Sul, visto de cima
Um iceberg tabular fotografado do ônibus espacial em 18 de setembro de 1991, no Atlântico Sul, a sudeste da ponta da América do Sul. Ele media cerca de 35 por 69 km. O topo plano é a marca registrada dos icebergs antárticos — e esse formato praticamente não aparece no hemisfério norte. Foto: NASA/JSC

O caso de outubro de 2026: o A-81 chegou

Em 27 de outubro de 2026, o Observatório da Terra da NASA publicou a imagem mais recente do iceberg A-81, captada no dia 20 de outubro pelo sensor MODIS, a bordo do satélite Terra.

A imagem mostra a placa de gelo encostando na beirada da plataforma submarina rasa que cerca a Geórgia do Sul, uma ilha do Atlântico Sul. E mostra algo mais: nos dias anteriores, o iceberg desacelerou visivelmente e parecia estar raspando o fundo contra essa borda submersa, segundo a leitura de Jan Lieser, do serviço de meteorologia da Austrália, e Christopher Shuman, da Universidade de Maryland.

A viagem até ali levou um bom tempo. Veja o itinerário:

Quando Onde estava
Janeiro de 2023 solta-se da plataforma de gelo Brunt
2023 a 2026 mais de três anos à deriva no Mar de Weddell
Maio de 2026 chega à ponta da Península Antártica
Meados de 2026 entra no Mar de Scotia, rumo ao norte
20 de outubro de 2026 freia na borda submarina da Geórgia do Sul

No total, 2.300 quilômetros percorridos. Parece muito, mas a velocidade média é de dar sono: menos de 2 quilômetros por dia, ou seja, o iceberg avançou por dia mais ou menos o que uma pessoa caminha em vinte minutos. Para os padrões desses gigantes, isso ainda conta como "saída rápida" — muitos passam décadas encalhados perto de casa.

Quem empurra é o Giro de Weddell, uma corrente oceânica que roda em sentido horário naquela bacia e carrega o que estiver boiando pela costa, até cuspir tudo para o norte.

De onde ele veio: uma fenda de 35 anos

O A-81 se soltou de uma plataforma chamada Brunt — uma prateleira de gelo que avança da costa antártica e fica flutuando sobre o mar, ainda grudada ao continente.

A rachadura que o libertou tem nome: Chasm 1. E tem história. Durante cerca de 35 anos, ela ficou praticamente parada, sem crescer. Por volta de 2012, voltou a se abrir. Em 2019, avançava rápido o bastante para que a quebra parecesse iminente — e mesmo assim o gelo aguentou mais alguns anos, só se partindo em janeiro de 2023.

Essa teimosia tem consequências práticas. Em cima da plataforma Brunt funciona a estação de pesquisa Halley, do serviço antártico britânico, uma base importante de estudos da Terra, da atmosfera e do espaço desde os anos 1950. Quando a fenda embaixo de você começa a andar, você precisa saber quando — e é por isso que a Brunt é uma das plataformas mais vigiadas do planeta.

A Brunt, aliás, anda produtiva: além do A-81, ela soltou o A-74 em 2021 e o A-83 em 2024. O A-74 já se despedaçou; o A-83 continua inteiro e está seguindo o A-81 rumo ao norte, junto com outros icebergs que parecem estar deixando o Mar de Weddell ao mesmo tempo.

Imagem térmica em falsa cor mostrando a enorme fenda que separou um iceberg de uma plataforma de gelo antártica, com a rachadura em laranja sobre o azul do gelo
Imagem térmica em falsa cor, feita pelo satélite Landsat, da rachadura que soltou um iceberg de quase 5.800 km² da plataforma Larsen C, em julho de 2017. O laranja marca as áreas mais quentes — aqui, a água e o gelo partido dentro da fenda; o azul claro é o gelo frio da plataforma. Foto: NASA/GSFC

Por que eles têm nome de placa de carro

"A-81", "A-23A", "B-31". Os nomes parecem código porque são código, e a regra é simples.

A Antártida foi dividida em quatro fatias de longitude, cada uma com uma letra. Um iceberg recebe a letra da fatia onde foi avistado pela primeira vez, mais um número em sequência. O A-81 é o 81º iceberg catalogado na fatia A, que cobre de 0 a 90 graus oeste — a região dos mares de Weddell e Bellingshausen.

Se o bloco se parte, cada pedaço grande ganha uma letra final. Foi assim que o A-23 virou A-23A: um pedaço menor se soltou, e a parte principal passou a carregar o sufixo.

Há um filtro de tamanho: só entram na lista oficial, mantida pelo Centro Nacional de Gelo dos Estados Unidos, os icebergs com pelo menos um lado de 19 quilômetros. Abaixo disso, o bloco existe, boia e é perigoso para navios — mas não ganha nome nem rastreamento individual. São tantos que não daria conta.

Elemento do nome O que significa
Letra inicial fatia da Antártida onde foi visto primeiro
Número ordem de catalogação naquela fatia
Letra final (quando há) pedaço que se separou do bloco original
Tamanho mínimo para entrar na lista um lado de 19 km

Por que todos acabam na Geórgia do Sul

A Geórgia do Sul é uma ilha pequena e remota do Atlântico Sul, a 2.300 km da plataforma de onde o A-81 saiu. E, mesmo assim, é onde a viagem costuma terminar. O motivo está debaixo d'água.

Em volta da ilha existe uma plataforma submarina rasa, uma espécie de degrau no fundo do mar. O iceberg que chega ali boiando — e um iceberg tabular tem a maior parte do volume submersa — simplesmente raspa o fundo e encalha, como um navio grande que entra num canal raso demais.

A partir daí, a história é de desmonte. Preso, exposto a água mais quente que a antártica e batido pelas ondas, o bloco começa a perder as bordas. Pedaços se soltam, o gigante encolhe e, em algum momento, se desfaz.

O fim do A-23A, que durou quase 40 anos

O exemplo mais completo é o do iceberg anterior, e ele é uma história e tanto.

O A-23A se soltou da plataforma de gelo Filchner em 10 de novembro de 1986. Pouco depois, encalhou no fundo do Mar de Weddell — e ficou ali, parado, até 2022. Foram cerca de 36 anos no mesmo lugar. Em 2020, ainda grudado ao fundo, media mais de 6.000 quilômetros quadrados: quase quatro cidades de São Paulo.

Quando finalmente se soltou, fez a mesma rota do A-81. Chegou à Geórgia do Sul no começo de 2025 e encalhou na plataforma submarina da ilha, exatamente como o A-81 ameaça fazer agora. Entre março e maio de 2025, perdeu mais de 360 quilômetros quadrados só pelas bordas. Em maio, se soltou do degrau e voltou a navegar — já bem menor.

Daí foi ladeira abaixo:

Data Tamanho
2020 (encalhado no Weddell) mais de 6.000 km²
Fim de julho de 2025 2.510 km²
Setembro de 2025 maior fragmento com pouco mais de 1.500 km²
27 de março de 2026 pouco mais de 170 km²

A última imagem dele é de 3 de abril de 2026, feita pelo sensor VIIRS do satélite NOAA-21: restos espalhados no Atlântico Sul, ao norte da Geórgia do Sul e das Ilhas Sandwich do Sul, a mais de 2.300 km de onde tinha nascido. Morreu a poucos meses de completar 40 anos.

Isso é normal ou é sinal de alguma coisa?

Aqui é preciso separar duas perguntas que costumam se misturar.

O desprendimento em si é normal. Plataformas de gelo são alimentadas por geleiras que empurram gelo continuamente da terra para o mar. Esse gelo avança, fica pendurado sobre a água e, cedo ou tarde, se parte. É o ciclo de vida da coisa — como unha que cresce e precisa ser cortada. Um iceberg gigante sozinho não é prova de nada por si só.

O que os cientistas vigiam é o ritmo. A plataforma Brunt soltou três grandes blocos em poucos anos, e por isso ela é acompanhada de perto. O que importa não é o evento isolado, e sim se a frequência está mudando e se a plataforma está ficando menor do que o normal.

Vale guardar outro ponto, porque confunde muita gente: um iceberg derretendo não faz o mar subir. Ele já estava boiando, e um corpo que boia já desloca o próprio peso em água. O que faz o mar subir é o gelo que sai de cima da terra e entra no mar pela primeira vez — assunto medido por satélite e explicado em O nível do mar está subindo? O que o satélite mediu. A diferença entre o gelo dos dois polos está em O gelo do Ártico e o da Antártida são a mesma coisa?.

Quem acompanha tudo isso de cima é uma frota de satélites que fotografa o planeta inteiro todos os dias, descrita em Quantos satélites observam a Terra o tempo todo?. Sem eles, um bloco de gelo do tamanho de São Paulo poderia cruzar o Atlântico Sul sem que ninguém notasse.

Perguntas frequentes

Qual foi o maior iceberg já registrado?

Entre os acompanhados de perto nos últimos anos, o A-23A foi o maior ainda flutuando: passava de 6.000 km² em 2020, quase quatro vezes a área da cidade de São Paulo. Ele terminou reduzido a pouco mais de 170 km² em março de 2026.

Um iceberg gigante pode chegar ao Brasil?

É muito improvável. Eles seguem as correntes do Atlântico Sul rumo ao nordeste e encontram águas cada vez mais quentes, que os desmancham bem antes. A rota natural passa pela Geórgia do Sul, muito ao sul do Brasil, e quase nenhum sobrevive à travessia.

Por que o iceberg encalha se ele está boiando?

Porque a maior parte do volume dele fica debaixo d'água — é assim com qualquer gelo que boia. Quando um bloco desse tamanho passa sobre uma plataforma submarina rasa, a parte submersa toca o fundo e trava, mesmo com o topo bem acima da superfície.

Quanto tempo dura um iceberg gigante?

Depende quase tudo de onde ele passa. O A-23A durou quase 40 anos, mas ficou cerca de 36 deles encalhado no fundo do Mar de Weddell, em água gelada, praticamente parado. Assim que chegou ao norte e encontrou mar mais quente, encolheu de mais de 1.500 km² para pouco mais de 170 km² em cerca de seis meses.

Como os cientistas acompanham um iceberg desses?

Por satélite. As imagens citadas aqui vêm do sensor MODIS, no satélite Terra da NASA, do Landsat e do sensor VIIRS, no NOAA-21. O rastreamento oficial, com os nomes e os tamanhos, é mantido pelo Centro Nacional de Gelo dos Estados Unidos.

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