Os icebergs gigantes da Antártida quase sempre fazem a mesma viagem: saem da costa, dão uma volta lenta no sentido horário pelo Mar de Weddell, sobem para o norte e vão morrer perto de uma ilha pequena e remota chamada Geórgia do Sul. O caminho é tão repetido que os cientistas o chamam de "beco dos icebergs". Em outubro de 2026, mais um chegou lá: o A-81, uma placa de gelo com cerca de 1.550 quilômetros quadrados — pouco maior que a cidade de São Paulo inteira.
Essa é a resposta curta. A longa tem fendas que levam décadas para abrir, nomes que parecem placa de carro e um final que quase sempre é o mesmo.
Antes de tudo: iceberg não é mar congelado
Confusão comum, e vale resolver em duas frases.
Gelo marinho é água do mar que congelou. Ele se forma no próprio oceano, no inverno, e derrete no verão.
Iceberg é um pedaço que se quebrou de uma geleira ou de uma plataforma de gelo apoiada em terra. Ou seja: é água doce, feita de neve que caiu e se acumulou durante milhares de anos, boiando num mar salgado. A diferença é explicada em detalhe em Por que o gelo do mar não é salgado?.
Os gigantes antárticos têm ainda um formato próprio: são tabulares, ou seja, chapados, de topo plano, parecidos com uma mesa boiando. Esse tipo praticamente não existe no hemisfério norte — o iceberg que afundou o Titanic era de outra família, irregular e pontudo, vindo da Groenlândia.

O caso de outubro de 2026: o A-81 chegou
Em 27 de outubro de 2026, o Observatório da Terra da NASA publicou a imagem mais recente do iceberg A-81, captada no dia 20 de outubro pelo sensor MODIS, a bordo do satélite Terra.
A imagem mostra a placa de gelo encostando na beirada da plataforma submarina rasa que cerca a Geórgia do Sul, uma ilha do Atlântico Sul. E mostra algo mais: nos dias anteriores, o iceberg desacelerou visivelmente e parecia estar raspando o fundo contra essa borda submersa, segundo a leitura de Jan Lieser, do serviço de meteorologia da Austrália, e Christopher Shuman, da Universidade de Maryland.
A viagem até ali levou um bom tempo. Veja o itinerário:
| Quando | Onde estava |
|---|---|
| Janeiro de 2023 | solta-se da plataforma de gelo Brunt |
| 2023 a 2026 | mais de três anos à deriva no Mar de Weddell |
| Maio de 2026 | chega à ponta da Península Antártica |
| Meados de 2026 | entra no Mar de Scotia, rumo ao norte |
| 20 de outubro de 2026 | freia na borda submarina da Geórgia do Sul |
No total, 2.300 quilômetros percorridos. Parece muito, mas a velocidade média é de dar sono: menos de 2 quilômetros por dia, ou seja, o iceberg avançou por dia mais ou menos o que uma pessoa caminha em vinte minutos. Para os padrões desses gigantes, isso ainda conta como "saída rápida" — muitos passam décadas encalhados perto de casa.
Quem empurra é o Giro de Weddell, uma corrente oceânica que roda em sentido horário naquela bacia e carrega o que estiver boiando pela costa, até cuspir tudo para o norte.
De onde ele veio: uma fenda de 35 anos
O A-81 se soltou de uma plataforma chamada Brunt — uma prateleira de gelo que avança da costa antártica e fica flutuando sobre o mar, ainda grudada ao continente.
A rachadura que o libertou tem nome: Chasm 1. E tem história. Durante cerca de 35 anos, ela ficou praticamente parada, sem crescer. Por volta de 2012, voltou a se abrir. Em 2019, avançava rápido o bastante para que a quebra parecesse iminente — e mesmo assim o gelo aguentou mais alguns anos, só se partindo em janeiro de 2023.
Essa teimosia tem consequências práticas. Em cima da plataforma Brunt funciona a estação de pesquisa Halley, do serviço antártico britânico, uma base importante de estudos da Terra, da atmosfera e do espaço desde os anos 1950. Quando a fenda embaixo de você começa a andar, você precisa saber quando — e é por isso que a Brunt é uma das plataformas mais vigiadas do planeta.
A Brunt, aliás, anda produtiva: além do A-81, ela soltou o A-74 em 2021 e o A-83 em 2024. O A-74 já se despedaçou; o A-83 continua inteiro e está seguindo o A-81 rumo ao norte, junto com outros icebergs que parecem estar deixando o Mar de Weddell ao mesmo tempo.

Por que eles têm nome de placa de carro
"A-81", "A-23A", "B-31". Os nomes parecem código porque são código, e a regra é simples.
A Antártida foi dividida em quatro fatias de longitude, cada uma com uma letra. Um iceberg recebe a letra da fatia onde foi avistado pela primeira vez, mais um número em sequência. O A-81 é o 81º iceberg catalogado na fatia A, que cobre de 0 a 90 graus oeste — a região dos mares de Weddell e Bellingshausen.
Se o bloco se parte, cada pedaço grande ganha uma letra final. Foi assim que o A-23 virou A-23A: um pedaço menor se soltou, e a parte principal passou a carregar o sufixo.
Há um filtro de tamanho: só entram na lista oficial, mantida pelo Centro Nacional de Gelo dos Estados Unidos, os icebergs com pelo menos um lado de 19 quilômetros. Abaixo disso, o bloco existe, boia e é perigoso para navios — mas não ganha nome nem rastreamento individual. São tantos que não daria conta.
| Elemento do nome | O que significa |
|---|---|
| Letra inicial | fatia da Antártida onde foi visto primeiro |
| Número | ordem de catalogação naquela fatia |
| Letra final (quando há) | pedaço que se separou do bloco original |
| Tamanho mínimo para entrar na lista | um lado de 19 km |
Por que todos acabam na Geórgia do Sul
A Geórgia do Sul é uma ilha pequena e remota do Atlântico Sul, a 2.300 km da plataforma de onde o A-81 saiu. E, mesmo assim, é onde a viagem costuma terminar. O motivo está debaixo d'água.
Em volta da ilha existe uma plataforma submarina rasa, uma espécie de degrau no fundo do mar. O iceberg que chega ali boiando — e um iceberg tabular tem a maior parte do volume submersa — simplesmente raspa o fundo e encalha, como um navio grande que entra num canal raso demais.
A partir daí, a história é de desmonte. Preso, exposto a água mais quente que a antártica e batido pelas ondas, o bloco começa a perder as bordas. Pedaços se soltam, o gigante encolhe e, em algum momento, se desfaz.
O fim do A-23A, que durou quase 40 anos
O exemplo mais completo é o do iceberg anterior, e ele é uma história e tanto.
O A-23A se soltou da plataforma de gelo Filchner em 10 de novembro de 1986. Pouco depois, encalhou no fundo do Mar de Weddell — e ficou ali, parado, até 2022. Foram cerca de 36 anos no mesmo lugar. Em 2020, ainda grudado ao fundo, media mais de 6.000 quilômetros quadrados: quase quatro cidades de São Paulo.
Quando finalmente se soltou, fez a mesma rota do A-81. Chegou à Geórgia do Sul no começo de 2025 e encalhou na plataforma submarina da ilha, exatamente como o A-81 ameaça fazer agora. Entre março e maio de 2025, perdeu mais de 360 quilômetros quadrados só pelas bordas. Em maio, se soltou do degrau e voltou a navegar — já bem menor.
Daí foi ladeira abaixo:
| Data | Tamanho |
|---|---|
| 2020 (encalhado no Weddell) | mais de 6.000 km² |
| Fim de julho de 2025 | 2.510 km² |
| Setembro de 2025 | maior fragmento com pouco mais de 1.500 km² |
| 27 de março de 2026 | pouco mais de 170 km² |
A última imagem dele é de 3 de abril de 2026, feita pelo sensor VIIRS do satélite NOAA-21: restos espalhados no Atlântico Sul, ao norte da Geórgia do Sul e das Ilhas Sandwich do Sul, a mais de 2.300 km de onde tinha nascido. Morreu a poucos meses de completar 40 anos.
Isso é normal ou é sinal de alguma coisa?
Aqui é preciso separar duas perguntas que costumam se misturar.
O desprendimento em si é normal. Plataformas de gelo são alimentadas por geleiras que empurram gelo continuamente da terra para o mar. Esse gelo avança, fica pendurado sobre a água e, cedo ou tarde, se parte. É o ciclo de vida da coisa — como unha que cresce e precisa ser cortada. Um iceberg gigante sozinho não é prova de nada por si só.
O que os cientistas vigiam é o ritmo. A plataforma Brunt soltou três grandes blocos em poucos anos, e por isso ela é acompanhada de perto. O que importa não é o evento isolado, e sim se a frequência está mudando e se a plataforma está ficando menor do que o normal.
Vale guardar outro ponto, porque confunde muita gente: um iceberg derretendo não faz o mar subir. Ele já estava boiando, e um corpo que boia já desloca o próprio peso em água. O que faz o mar subir é o gelo que sai de cima da terra e entra no mar pela primeira vez — assunto medido por satélite e explicado em O nível do mar está subindo? O que o satélite mediu. A diferença entre o gelo dos dois polos está em O gelo do Ártico e o da Antártida são a mesma coisa?.
Quem acompanha tudo isso de cima é uma frota de satélites que fotografa o planeta inteiro todos os dias, descrita em Quantos satélites observam a Terra o tempo todo?. Sem eles, um bloco de gelo do tamanho de São Paulo poderia cruzar o Atlântico Sul sem que ninguém notasse.




