Os planetas são redondos porque a gravidade puxa tudo para o centro, e a única forma em que nada sobra para ser puxado é a bola. Se um pedaço qualquer ficasse para fora, a gravidade o arrastaria para dentro; se um buraco ficasse afundado, o material das bordas escorregaria para preenchê-lo. Uma pedra pequena não vira bola porque a gravidade dela é fraca demais para vencer a dureza da própria rocha. A pergunta interessante, então, não é por que Júpiter é redondo — é em que tamanho uma pedra deixa de ser pedra e vira mundo. E a resposta tem uma surpresa: não existe um número exato.
A gravidade não sabe fazer outra coisa além de bola
Imagine empilhar areia molhada na praia. Você consegue um montinho de uns 30 centímetros; passou disso, ele desmorona. O peso da areia de cima vence o atrito da areia de baixo, e o monte escorrega até virar um cone baixo e largo. O limite existe porque a força que segura a areia no lugar é pequena comparada ao peso dela.
Agora imagine o mesmo problema num corpo com milhares de quilômetros. O "peso" ali é enorme, porque a gravidade cresce junto com a massa. A rocha, por mais dura que seja, começa a se comportar como uma massa de pão muito grossa: lenta, mas inevitavelmente, ela escorre. Toda montanha afunda, todo buraco se enche, e ao longo de milhões de anos o corpo inteiro assume a forma em que a gravidade fica igual em todas as direções. Essa forma é a esfera.
Os astrônomos chamam esse estado de equilíbrio hidrostático: o corpo se comportou como se fosse líquido, mesmo sendo feito de rocha. E isso é tão importante que virou regra oficial. Quando a União Astronômica Internacional definiu o que é um planeta, em 2006, o segundo dos três critérios foi exatamente este: ter massa suficiente para a própria gravidade o ter arredondado. Contamos essa história inteira em Por que Plutão não é mais um planeta.
Em que tamanho a pedra desiste
Corpos pequenos não têm chance. Fobos, a maior lua de Marte, tem raio médio de pouco mais de 11 km segundo o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, e parece uma batata amassada — tratamos dela em Fobos e Deimos, as luas de Marte. A gravidade de um corpo desse porte é tão fraca que um astronauta conseguiria pular alto o bastante para nunca mais voltar. Ela não tem força nenhuma para remodelar rocha.
Subindo na escala, a coisa muda perto de algumas centenas de quilômetros. Veja onde está a linha, com os dados do JPL e da NASA:
| Corpo | Diâmetro médio | Redondo? |
|---|---|---|
| Fobos (lua de Marte) | 22 km | Não, é uma batata |
| Hipérion (lua de Saturno) | 270 km | Não, irregular |
| Mimas (lua de Saturno) | 396 km | Sim |
| Proteu (lua de Netuno) | 416 km | Não, quase quadrado |
| Vesta (asteroide) | 523 km | Não, achatado e irregular |
| Ceres (planeta anão) | 939 km | Sim |
| Lua da Terra | 3.475 km | Sim |
Leia essa tabela de cima para baixo e o padrão parece claro até a terceira linha. Depois ele quebra.
A prova lado a lado: Vesta e Ceres
O melhor par de comparação está no cinturão de asteroides, e os dois foram fotografados pela mesma sonda, a Dawn, o que elimina qualquer dúvida sobre método.
Vesta é o maior objeto que ainda é chamado de asteroide. O banco de dados de corpos pequenos do JPL dá para ele um diâmetro médio de 523 km, mas o número que interessa é outro: as três medidas dele são 569, 554 e 453 km. Ou seja, o eixo mais comprido é 116 km maior que o mais curto. Isso não é um detalhe de arredondamento, é o formato de uma batata grande.

Ceres tem 939 km de diâmetro médio, quase o dobro de Vesta, e as medidas dele são 964, 964 e 892 km. Também não é uma esfera perfeita — mas repare na diferença qualitativa: em Vesta os três eixos são todos diferentes; em Ceres dois são idênticos e só o terceiro é menor. Isso é o formato de uma bola girando, achatada nos polos, e não o de um pedregulho. Ceres é redondo e por isso foi promovido a planeta anão em 2006; Vesta continua asteroide. Os dois aparecem em O cinturão de asteroides: o que existe entre Marte e Júpiter.
Um aviso de leitura, porque o site já publicou outro número: páginas da NASA dão o raio de Ceres como 476 km, o que resulta em 952 km de diâmetro. O JPL publica 939,4 km. Os dois estão certos e medem coisas ligeiramente diferentes — um arredonda o raio, o outro tira a média dos três eixos de um corpo que, como acabamos de ver, não é uma bola perfeita. Quando um corpo não é esférico, "o diâmetro" deixa de ser uma coisa só.
Por que não existe um número exato
Aqui está a surpresa que desmonta a tabela. Proteu, a segunda maior lua de Netuno, tem cerca de 416 km de diâmetro. Mimas, lua de Saturno, tem 396 km. Proteu é maior, e Proteu não é redondo.
A NASA descreve Proteu sem rodeios: ele tem uma forma esquisita, parecida com uma caixa, e se tivesse só um pouco mais de massa conseguiria virar uma esfera. É a frase mais reveladora do assunto inteiro, porque ela fala em massa, não em tamanho.
E é aí que está a resposta. O que arredonda um corpo não é quantos quilômetros ele mede, é quanta gravidade ele consegue gerar e quão fácil é deformar o material de que ele é feito. Gelo cede muito mais fácil que rocha. Mimas é uma bola de gelo: dividindo a massa que o JPL publica pelo volume dele, a densidade dá 1,15 grama por centímetro cúbico, quase a da água, e bem menos que a de Vesta, que é 3,46. Gelo com pouca gravidade escorre; rocha com muita gravidade resiste. Por isso a linha entre mundo e pedregulho não é uma linha, é uma faixa borrada que depende do cardápio de cada corpo.
Nenhum planeta é uma bola perfeita
Todo planeta gira, e girar joga o material para fora no equador — a mesma força que empurra você contra a porta do ônibus numa curva. O resultado é que todos eles são achatados nos polos. A ficha planetária do arquivo de dados espaciais da NASA mostra quanto:
| Corpo | Raio no equador | Raio no polo | Diferença |
|---|---|---|---|
| Saturno | 60.268 km | 54.364 km | 5.904 km |
| Júpiter | 71.492 km | 66.854 km | 4.638 km |
| Terra | 6.378,1 km | 6.356,8 km | 21,4 km |
| Marte | 3.396,2 km | 3.376,2 km | 20,0 km |
| Lua | 1.738,1 km | 1.736,0 km | 2,1 km |
A Terra é gorda no meio, então. Mas quanto isso aparece? Se você encolhesse o planeta até virar um globo de 1 metro, o diâmetro medido no equador seria apenas 3,4 milímetros maior que o medido de polo a polo. Você não perceberia passando a mão. Da órbita, a Terra parece uma bola perfeita porque, para todos os efeitos, ela é.
Saturno, o mais achatado de todos
Com Saturno é outra história: aqueles 5.904 km fazem o diâmetro dele no equador ser quase 11% maior que o medido de polo a polo. No mesmo globo de 1 metro, o diâmetro medido no equador seria 10 centímetros maior que o medido de polo a polo. Isso é visível até num telescópio amador: Saturno não parece um círculo na ocular, parece um ovo deitado.
Duas coisas se somam para isso. Saturno gira muito rápido, completando uma volta em 10 horas e 34 minutos, enquanto a Terra leva 24. E ele é feito quase todo de gás, sem crosta sólida nenhuma segurando o formato — o planeta inteiro é fluido e responde ao giro sem resistir. Júpiter, que gira ainda mais rápido, é um pouco menos achatado porque é mais denso e sua gravidade puxa com mais força para dentro. Os detalhes de quem gira quanto estão em Quanto tempo dura um dia em cada planeta.

A mesma gravidade também limita as montanhas
Há uma consequência bonita disso tudo. A gravidade que arredonda o planeta é a mesma que impede as montanhas de crescerem para sempre: passado certo ponto, a base da montanha não aguenta o peso e começa a afundar, igual ao monte de areia da praia.
É por isso que o maior vulcão do Sistema Solar está em Marte e não aqui. Marte tem 0,38 vez a gravidade da Terra, então uma pilha de rocha pesa menos lá e pode crescer bem mais antes de ceder. O Monte Olimpo chega a mais de 20 km de altura, contra os 8.849 metros do Everest — a história completa está em Monte Olimpo: a maior montanha do Sistema Solar.
Nos dois casos, a regra por trás é a mesma: num corpo grande o bastante, a gravidade sempre ganha no longo prazo. Ela arredonda o planeta e ela derruba a montanha. O que é uma pedra teimosa numa escala pequena vira massa de modelar numa escala grande.




