Perguntas que todo mundo faz

Por que os planetas são redondos e as pedras não

A gravidade só sabe fazer bola. Onde fica a linha entre um mundo redondo e uma batata espacial, e por que nenhum planeta é uma esfera perfeita.

Publicado em 8 min de leitura
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O asteroide Vesta fotografado pela sonda Dawn, com o corpo visivelmente irregular e cheio de crateras sobre o fundo preto do espaço
Foto: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA
Neste artigo
  1. A gravidade não sabe fazer outra coisa além de bola
  2. Em que tamanho a pedra desiste
  3. A prova lado a lado: Vesta e Ceres
  4. Por que não existe um número exato
  5. Nenhum planeta é uma bola perfeita
  6. Saturno, o mais achatado de todos
  7. A mesma gravidade também limita as montanhas

Os planetas são redondos porque a gravidade puxa tudo para o centro, e a única forma em que nada sobra para ser puxado é a bola. Se um pedaço qualquer ficasse para fora, a gravidade o arrastaria para dentro; se um buraco ficasse afundado, o material das bordas escorregaria para preenchê-lo. Uma pedra pequena não vira bola porque a gravidade dela é fraca demais para vencer a dureza da própria rocha. A pergunta interessante, então, não é por que Júpiter é redondo — é em que tamanho uma pedra deixa de ser pedra e vira mundo. E a resposta tem uma surpresa: não existe um número exato.

A gravidade não sabe fazer outra coisa além de bola

Imagine empilhar areia molhada na praia. Você consegue um montinho de uns 30 centímetros; passou disso, ele desmorona. O peso da areia de cima vence o atrito da areia de baixo, e o monte escorrega até virar um cone baixo e largo. O limite existe porque a força que segura a areia no lugar é pequena comparada ao peso dela.

Agora imagine o mesmo problema num corpo com milhares de quilômetros. O "peso" ali é enorme, porque a gravidade cresce junto com a massa. A rocha, por mais dura que seja, começa a se comportar como uma massa de pão muito grossa: lenta, mas inevitavelmente, ela escorre. Toda montanha afunda, todo buraco se enche, e ao longo de milhões de anos o corpo inteiro assume a forma em que a gravidade fica igual em todas as direções. Essa forma é a esfera.

Os astrônomos chamam esse estado de equilíbrio hidrostático: o corpo se comportou como se fosse líquido, mesmo sendo feito de rocha. E isso é tão importante que virou regra oficial. Quando a União Astronômica Internacional definiu o que é um planeta, em 2006, o segundo dos três critérios foi exatamente este: ter massa suficiente para a própria gravidade o ter arredondado. Contamos essa história inteira em Por que Plutão não é mais um planeta.

Em que tamanho a pedra desiste

Corpos pequenos não têm chance. Fobos, a maior lua de Marte, tem raio médio de pouco mais de 11 km segundo o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, e parece uma batata amassada — tratamos dela em Fobos e Deimos, as luas de Marte. A gravidade de um corpo desse porte é tão fraca que um astronauta conseguiria pular alto o bastante para nunca mais voltar. Ela não tem força nenhuma para remodelar rocha.

Subindo na escala, a coisa muda perto de algumas centenas de quilômetros. Veja onde está a linha, com os dados do JPL e da NASA:

Corpo Diâmetro médio Redondo?
Fobos (lua de Marte) 22 km Não, é uma batata
Hipérion (lua de Saturno) 270 km Não, irregular
Mimas (lua de Saturno) 396 km Sim
Proteu (lua de Netuno) 416 km Não, quase quadrado
Vesta (asteroide) 523 km Não, achatado e irregular
Ceres (planeta anão) 939 km Sim
Lua da Terra 3.475 km Sim

Leia essa tabela de cima para baixo e o padrão parece claro até a terceira linha. Depois ele quebra.

A prova lado a lado: Vesta e Ceres

O melhor par de comparação está no cinturão de asteroides, e os dois foram fotografados pela mesma sonda, a Dawn, o que elimina qualquer dúvida sobre método.

Vesta é o maior objeto que ainda é chamado de asteroide. O banco de dados de corpos pequenos do JPL dá para ele um diâmetro médio de 523 km, mas o número que interessa é outro: as três medidas dele são 569, 554 e 453 km. Ou seja, o eixo mais comprido é 116 km maior que o mais curto. Isso não é um detalhe de arredondamento, é o formato de uma batata grande.

O planeta anão Ceres visto inteiro pela sonda Dawn, uma esfera cinzenta coberta de crateras, com um ponto branco brilhante no meio do disco
Ceres, o maior objeto do cinturão de asteroides, fotografado pela sonda Dawn. A mancha branca no centro é o fundo da cratera Occator, com depósitos de sal. Compare o contorno desta foto com o da foto de capa: os dois corpos foram visitados pela mesma sonda. Foto: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA

Ceres tem 939 km de diâmetro médio, quase o dobro de Vesta, e as medidas dele são 964, 964 e 892 km. Também não é uma esfera perfeita — mas repare na diferença qualitativa: em Vesta os três eixos são todos diferentes; em Ceres dois são idênticos e só o terceiro é menor. Isso é o formato de uma bola girando, achatada nos polos, e não o de um pedregulho. Ceres é redondo e por isso foi promovido a planeta anão em 2006; Vesta continua asteroide. Os dois aparecem em O cinturão de asteroides: o que existe entre Marte e Júpiter.

Um aviso de leitura, porque o site já publicou outro número: páginas da NASA dão o raio de Ceres como 476 km, o que resulta em 952 km de diâmetro. O JPL publica 939,4 km. Os dois estão certos e medem coisas ligeiramente diferentes — um arredonda o raio, o outro tira a média dos três eixos de um corpo que, como acabamos de ver, não é uma bola perfeita. Quando um corpo não é esférico, "o diâmetro" deixa de ser uma coisa só.

Por que não existe um número exato

Aqui está a surpresa que desmonta a tabela. Proteu, a segunda maior lua de Netuno, tem cerca de 416 km de diâmetro. Mimas, lua de Saturno, tem 396 km. Proteu é maior, e Proteu não é redondo.

A NASA descreve Proteu sem rodeios: ele tem uma forma esquisita, parecida com uma caixa, e se tivesse só um pouco mais de massa conseguiria virar uma esfera. É a frase mais reveladora do assunto inteiro, porque ela fala em massa, não em tamanho.

E é aí que está a resposta. O que arredonda um corpo não é quantos quilômetros ele mede, é quanta gravidade ele consegue gerar e quão fácil é deformar o material de que ele é feito. Gelo cede muito mais fácil que rocha. Mimas é uma bola de gelo: dividindo a massa que o JPL publica pelo volume dele, a densidade dá 1,15 grama por centímetro cúbico, quase a da água, e bem menos que a de Vesta, que é 3,46. Gelo com pouca gravidade escorre; rocha com muita gravidade resiste. Por isso a linha entre mundo e pedregulho não é uma linha, é uma faixa borrada que depende do cardápio de cada corpo.

Nenhum planeta é uma bola perfeita

Todo planeta gira, e girar joga o material para fora no equador — a mesma força que empurra você contra a porta do ônibus numa curva. O resultado é que todos eles são achatados nos polos. A ficha planetária do arquivo de dados espaciais da NASA mostra quanto:

Corpo Raio no equador Raio no polo Diferença
Saturno 60.268 km 54.364 km 5.904 km
Júpiter 71.492 km 66.854 km 4.638 km
Terra 6.378,1 km 6.356,8 km 21,4 km
Marte 3.396,2 km 3.376,2 km 20,0 km
Lua 1.738,1 km 1.736,0 km 2,1 km

A Terra é gorda no meio, então. Mas quanto isso aparece? Se você encolhesse o planeta até virar um globo de 1 metro, o diâmetro medido no equador seria apenas 3,4 milímetros maior que o medido de polo a polo. Você não perceberia passando a mão. Da órbita, a Terra parece uma bola perfeita porque, para todos os efeitos, ela é.

Saturno, o mais achatado de todos

Com Saturno é outra história: aqueles 5.904 km fazem o diâmetro dele no equador ser quase 11% maior que o medido de polo a polo. No mesmo globo de 1 metro, o diâmetro medido no equador seria 10 centímetros maior que o medido de polo a polo. Isso é visível até num telescópio amador: Saturno não parece um círculo na ocular, parece um ovo deitado.

Duas coisas se somam para isso. Saturno gira muito rápido, completando uma volta em 10 horas e 34 minutos, enquanto a Terra leva 24. E ele é feito quase todo de gás, sem crosta sólida nenhuma segurando o formato — o planeta inteiro é fluido e responde ao giro sem resistir. Júpiter, que gira ainda mais rápido, é um pouco menos achatado porque é mais denso e sua gravidade puxa com mais força para dentro. Os detalhes de quem gira quanto estão em Quanto tempo dura um dia em cada planeta.

A lua Mimas, de Saturno, vista inteira como uma esfera cinzenta coberta de crateras, com uma cratera gigantesca na borda direita do disco
Mimas, lua de Saturno, fotografada em luz visível pela sonda Cassini em novembro de 2016, a 85 mil km de distância. Com 396 km de diâmetro, ela é um dos menores corpos redondos conhecidos. A cratera enorme na borda, chamada Herschel, foi quase grande o bastante para partir a lua em pedaços. Foto: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute

A mesma gravidade também limita as montanhas

Há uma consequência bonita disso tudo. A gravidade que arredonda o planeta é a mesma que impede as montanhas de crescerem para sempre: passado certo ponto, a base da montanha não aguenta o peso e começa a afundar, igual ao monte de areia da praia.

É por isso que o maior vulcão do Sistema Solar está em Marte e não aqui. Marte tem 0,38 vez a gravidade da Terra, então uma pilha de rocha pesa menos lá e pode crescer bem mais antes de ceder. O Monte Olimpo chega a mais de 20 km de altura, contra os 8.849 metros do Everest — a história completa está em Monte Olimpo: a maior montanha do Sistema Solar.

Nos dois casos, a regra por trás é a mesma: num corpo grande o bastante, a gravidade sempre ganha no longo prazo. Ela arredonda o planeta e ela derruba a montanha. O que é uma pedra teimosa numa escala pequena vira massa de modelar numa escala grande.

Perguntas frequentes

Por que os planetas são redondos?

Porque a gravidade puxa toda a matéria na direção do centro, e a esfera é a única forma em que nada fica sobrando para ser puxado. Num corpo grande, a gravidade é forte o bastante para fazer até a rocha escorrer ao longo de milhões de anos. Os astrônomos chamam isso de equilíbrio hidrostático.

Por que os asteroides não são redondos?

Porque são pequenos demais. A gravidade de um asteroide é fraca comparada com a dureza da rocha que o forma, então nada escorre e ele guarda para sempre o formato irregular com que foi quebrado. Fobos, a lua de Marte, tem 22 km e parece uma batata.

Qual é o menor corpo redondo do Sistema Solar?

Não existe um limite exato. Mimas, lua de Saturno, tem 396 km e é redonda; Proteu, lua de Netuno, tem 416 km e não é. O que decide é a massa e o material: gelo se deforma muito mais fácil que rocha, então uma lua gelada vira bola com menos massa que uma rochosa.

A Terra é uma esfera perfeita?

Não. O giro joga material para fora no equador, e por isso o raio equatorial da Terra é 21,4 km maior que o polar. Só que isso é muito pouco: num globo de 1 metro, o diâmetro no equador passaria o dos polos em apenas 3,4 milímetros.

Qual planeta é o mais achatado?

Saturno. O raio dele no equador é 5.904 km maior que nos polos, o que deixa o diâmetro equatorial quase 11% maior que o polar, e o achatamento é visível até num telescópio amador. A causa é a combinação de rotação rápida, 10 horas e 34 minutos, com um corpo feito quase todo de gás.

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