Quem já voltou de uma caminhada espacial e tirou o capacete descreve sempre as mesmas coisas: metálico, adocicado, parecido com fumaça de solda, pólvora queimada ou carne selada na chapa. A descrição se repete há décadas, entre astronautas de países diferentes que nunca combinaram nada.
E a resposta honesta da NASA, publicada pelo centro Ames da agência, é esta: "a resposta curta é que não sabemos". Há uma suspeita boa sobre a causa, há um mecanismo plausível para como o cheiro entra na estação, e há uma pegadinha no meio da pergunta — porque, no vácuo, ninguém cheira nada.
Primeiro, a pegadinha: não dá para cheirar o espaço
Cheirar depende de moléculas flutuando no ar entrando pelo seu nariz. O espaço é um vácuo altíssimo: fora da estação não há ar nenhum para carregar cheiro, e um ser humano sem traje perderia a consciência em segundos — assunto de O que acontece com o corpo humano no espaço sem traje.
Então o que os astronautas sentem não é o espaço diretamente. É o que fica grudado no traje. A NASA descreve assim: ao voltar da caminhada e tirar o capacete, eles são atingidos pelo cheiro de moléculas que "pegaram carona" no traje. O odor adere ao traje, ao capacete, às luvas e às ferramentas. Dentro do traje, durante a caminhada, não se sente nada: lá o cheiro é só de plástico.
Em outras palavras, a pergunta certa não é "qual é o cheiro do espaço", e sim "o que gruda num traje que passou seis horas lá fora".
O que eles dizem exatamente
Vale ler as descrições originais, porque elas são mais específicas do que a lenda que circula.
O astronauta Greg Chamitoff: "tem um cheiro aqui em cima que é realmente único... a gente chama de o cheiro do espaço. É um cheiro metálico muito, muito forte, e eu não sei exatamente o que é."
Kevin Ford, falando de órbita em 2009: "é algo que eu nunca tinha cheirado antes, mas que nunca vou esquecer."
Don Pettit, depois de uma missão de 2003, escreveu num blog da NASA a descrição mais detalhada de todas: "é difícil descrever esse cheiro... o melhor que consigo é metálico; uma sensação metálica adocicada e bastante agradável. Me lembrou os verões da faculdade, em que passei muitas horas com um maçarico de solda consertando equipamento pesado para uma madeireira pequena. Me lembrou fumaça de solda, agradável e adocicada. Esse é o cheiro do espaço."
Juntando o que foi dito por quem esteve lá:
| Quem | Com o que comparou |
|---|---|
| Greg Chamitoff (NASA) | Cheiro metálico muito forte, de origem desconhecida |
| Don Pettit (NASA) | Fumaça de solda, metálica e adocicada |
| Kevin Ford (NASA) | Nada que ele já tivesse cheirado antes |
| Alexander Gerst (ESA) | Nozes com pastilha de freio de moto |
| Astronautas em geral | Pólvora, ozônio, carne selada na chapa |
A da carne na chapa é a descrição que mais viralizou em português — e, ao contrário de muita coisa que viraliza, essa é real.

A explicação mais provável: fuligem de estrela
Quando perguntam a causa, a NASA aponta para uma família de moléculas de nome feio e presença universal: os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, os HPA.
Explicando sem jargão: são moléculas de carbono montadas em anéis, lado a lado, num desenho que lembra tela de galinheiro. São extremamente resistentes e estão espalhadas pelo universo inteiro. Aqui na Terra, elas são exatamente o que existe na fuligem: fumaça de escapamento de caminhão, torrada queimada, carvão da churrasqueira, carne marcada demais na grelha.
Quem explica é Louis Allamandola, ex-diretor do Laboratório de Astrofísica e Astroquímica do centro Ames da NASA. O raciocínio dele é elegante: estrelas no fim da vida expelem carbono, e algumas produzem tanto carbono em relação ao oxigênio que fabricam fuligem de verdade — em quantidade suficiente, em certos casos, para bloquear a própria luz da estrela. A química dessas camadas ao redor de estrelas moribundas, diz ele, é "muito, muito parecida com a combustão de combustível fóssil".
É por isso que a comparação com churrasco não é poética: é literal. O nariz humano é especialmente sensível a HPA pequenos — e é esse o cheiro que você sentiria, segundo Allamandola, se pudesse inalar algumas centenas de quilômetros cúbicos de espaço.
Essas moléculas resistem à radiação e às ondas de choque que destroem quase todo o resto, e por isso ficam boiando por milhões de anos até acabarem em cometas, meteoros e poeira — a mesma poeira que cai na Terra todo dia, contabilizada em Quanta poeira espacial cai na Terra por dia?.

Mas e o cheiro que entra na estação?
Há uma segunda explicação, para um efeito mais local, e ela é diferente da primeira. Quem oferece é Scott Sandford, cientista sênior do centro Ames: boa parte do que os astronautas da estação sentem é resultado de uma espécie de combustão.
A Estação Espacial voa entre 370 e 460 km de altitude, e nessa faixa ainda existe um resto de atmosfera, incluindo oxigênio. A estação atravessa esse ar rarefeito a 28 mil km/h e cria, à frente dela, um halo de oxigênio excitado. Esse oxigênio ataca quimicamente os materiais da parte da frente — é oxidação, parente próxima da queima.
Sandford conta que viu o efeito quando era estudante: filmes de mylar voltados para a frente da nave vinham corroídos. E conclui que o mesmo processo deve estar acontecendo com os trajes dos astronautas. Ou seja: o cheiro de "coisa queimada" seria, em boa parte, coisa realmente queimando — devagar, a frio, no material do traje.
As duas explicações não brigam. Uma vale para o espaço profundo, a outra para a órbita baixa onde ficam as pessoas.

O cheiro de dentro da estação é outro
Quem imagina a Estação Espacial com aroma cósmico vai se decepcionar. O próprio Don Pettit, depois de seis meses a bordo, descreveu o ambiente como "meio oficina mecânica, meio casa de máquinas, meio laboratório" — e completou que, na hora de abrir uma embalagem de ensopado para o jantar, dá para sentir um leve cheiro de carne assada.
Faz sentido: é um ambiente fechado, cheio de equipamento elétrico, com sete pessoas morando dentro, ar reciclado e água reaproveitada. A rotina lá dentro está descrita em Como é a rotina de um astronauta na ISS.
A NASA mandou fabricar o cheiro
Detalhe que parece piada e não é: a agência contratou o perfumista Steven Pearce, da empresa Omega Ingredients, para recriar o odor e usá-lo em simulações de treinamento. A ideia é que o astronauta não tome um susto sensorial na primeira caminhada de verdade.
A mesma equipe produziu também o cheiro da Lua. Os astronautas da Apollo, ao voltar para dentro do módulo com a poeira lunar grudada no traje, compararam o odor a pólvora queimada — um dos muitos problemas que aquela poeira causou, listados em A poeira da Lua: o maior inimigo das missões lunares.
Cada lugar teria o seu cheiro
Se a lógica dos HPA está certa, "cheiro do espaço" no singular é uma simplificação. Segundo Allamandola, dentro das nuvens escuras onde nascem estrelas e planetas os grãos de poeira ficam a cerca de 15 graus acima do zero absoluto, e sobre eles se condensa um gelo cuja receita é bem conhecida: água, álcool, amônia e gás carbônico, com pitadas de monóxido de carbono, HPA e formaldeído.
O resultado seria, nas palavras dele, "uma sorveteria maluca": o toque gelado da água dominado por um golpe de amônia de dobrar os joelhos, e, em alguns casos, um fundo de formaldeído que lembra necrotério.
Já Io, a lua vulcânica de Júpiter, teria cheiro próprio — e Sandford arrisca um palpite, deixando claro que é palpite: ovo podre, por causa do enxofre. Combina com o que se conhece daquele mundo, descrito em Io: a lua mais vulcânica do Sistema Solar.



